O mês de fevereiro de 2026 começou com um desafio logístico de peso para o agronegócio nacional. Uma combinação de fatores regulatórios e o pico da safra de grãos criaram um cenário de pressão máxima nas rodovias, elevando drasticamente o custo do transporte. Para a cadeia da batata, o alerta está ligado: a disputa por caminhões e a nova regulação estão pressionando as margens do setor.
Neste artigo, explicamos por que o valor do frete subiu tanto e como isso afeta diretamente o produtor e o distribuidor de batata.
A “Tempestade Perfeita” nas Rodovias
Para entender o cenário atual, é preciso analisar três fatores que convergiram neste início de ano:
- Nova Tabela da ANTT: Em 20 de janeiro, entrou em vigor a Resolução nº 6.076/2026 da Agência Nacional de Transportes Terrestres. A atualização da Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC) reajustou os coeficientes de custo para cobrir a inflação de itens como diesel, pneus e manutenção, tornando o frete legalmente mais caro.
- Fiscalização Eletrônica Rigorosa: Diferente de anos anteriores, o “jeitinho” de negociar abaixo da tabela acabou. A ANTT intensificou a fiscalização eletrônica através do pagamento via meio eletrônico (PEF). Em janeiro, as autuações dispararam, forçando embarcadores e transportadoras a respeitarem integralmente os novos pisos sob pena de multas pesadas.
- Supersafra de Grãos: A colheita da soja, especialmente no Centro-Oeste, está acelerada. A alta demanda para escoar a produção até os portos está drenando a disponibilidade de veículos, gerando escassez de caminhões para outros setores.
Segundo dados de mercado, o frete já subiu entre 15% e 20% em janeiro nas principais rotas, e a tendência é de manutenção ou alta em fevereiro.
O Impacto Direto no Mercado da Batata
Enquanto a soja e o milho são commodities de exportação com alto valor agregado, a batata é um produto voltado ao mercado interno, sensível a custos e altamente perecível. O aumento no valor do frete atinge o setor de três formas cruciais:
1. Escassez e Disputa por Caminhões
A safra de grãos oferece fretes de longo curso e pagamento garantido, atraindo maciçamente os motoristas autônomos e frotas. Para o bataticultor conseguir um caminhão disponível agora, ele precisa competir com os preços inflacionados pelo setor de grãos. O “efeito aspirador” da soja deixa pouca sobra de veículos para as cargas gerais e hortifrúti.
2. Perecibilidade vs. Custo
Diferente dos grãos, a batata não pode esperar em silos por um frete mais barato. O produto precisa ser escoado rapidamente após a colheita para manter a qualidade. Com a nova tabela da ANTT, os custos fixos de carga e descarga também subiram, encarecendo a operação justamente no momento em que o produtor tem menos poder de barganha devido à urgência da entrega.
3. Pressão nas Margens e no Preço Final
O frete representa uma fatia significativa no custo final da batata, devido ao seu peso e volume em relação ao valor unitário. Com a logística até 20% mais cara, é inevitável uma pressão sobre as margens do produtor. Parte desse custo tende a ser repassada ao atacado e varejo, podendo impactar o preço final ao consumidor e travar o fluxo de vendas.
O Que o Produtor Deve Fazer?
A ABBIN recomenda cautela e planejamento estratégico para os próximos meses:
- Atenção à Conformidade: Utilize ferramentas atualizadas para calcular o piso mínimo conforme a Resolução 6.076/2026. O risco de multas automáticas pela ANTT não compensa a tentativa de economizar no transporte.
- Antecipação: Tente programar as coletas com maior antecedência. Deixar para buscar veículo no mercado spot (contratação imediata) no dia da colheita resultará em pagar o teto do preço.
- Agilidade na Operação: A nova lei penaliza a ineficiência. O tempo de espera do caminhão custa caro (estadia). Otimizar o processo de carga e descarga no galpão é essencial para evitar custos adicionais de diárias, que agora estão tabeladas com valores maiores.
O cenário para fevereiro e março é de valor do frete sustentado em patamares altos. O setor da batata precisará de gestão eficiente para navegar a disputa logística de 2026 sem comprometer a rentabilidade.








