A história de Márcio Kakau no CEASA é um retrato fiel da evolução do agronegócio brasileiro. O nome que hoje é referência no setor de tubérculos carrega uma herança curiosa de uma fase anterior: o apelido “Kakau” originou-se de uma variedade de mandioca que ele comercializava no início da carreira.
A entrada definitiva no setor que o consagraria tem data exata na memória: foi em 1º de outubro de 2000 que, influenciado por familiares, ele migrou suas operações para a batata.
Hoje, com mais de duas décadas de experiência, ele descreve a rotina de quem abastece o país como um teste de resistência. “Na batata, você está online 24 horas por dia”, resume o empresário, ao explicar que a exigência vai muito além da simples venda.
Ele define o cenário atual como “um mercado muito eletrizante”, justificando que “além da comercialização, a logística tem que ser muito perfeita, porque a batata não tem referência: um dia está de um jeito, no outro dia mudou”. Essa volatilidade exige atenção total, pois, segundo ele, “tem dia que de manhã está de um jeito e de tarde já está de outro”.
De vendedor a operador logístico
A mudança no perfil dos compradores, com a consolidação das grandes redes de supermercados, forçou uma reinvenção radical do atacadista. “Hoje eu não me considero mais vendedor de batata, hoje eu sou um operador logístico”, sentencia Kakau.
A rejeição ao rótulo antigo tem um motivo prático: “Eu tenho que entregar o produto que o varejo quer”, diz ele, ressaltando que a complexidade geográfica é um dos maiores desafios dessa função.
Ele exemplifica essa dinâmica itinerante: “Tem dia que a batata está no Paraná, em Minas, em Goiás, em São Paulo ou na Bahia. Eu tenho que fazer toda essa logística para entregar o produto que o cliente quer, todo dia, lá no centro de distribuição dele”. Essa transformação exige um nível de excelência operacional onde não há margem para erros.
Para o empresário, “a logística precisa funcionar perfeitamente para chegar ao consumidor na hora que ele precisa e no padrão que ele exige”. A missão agora é a eficiência total para “atender o pessoal no dia, na hora, na cor e no tamanho que ele quer”.
Gestão na ponta do lápis: a regra da “unha”
Com a tecnificação do campo e o aumento da produtividade, o mercado convive frequentemente com a abundância de oferta. Nesse cenário de preços muitas vezes depreciados, Márcio Kakau recorre a uma metáfora visual para explicar sua filosofia de sobrevivência.
“Custo é igual unha: se você não cortar, ela está sempre crescendo para te incomodar”, ensina ele. Essa é a regra de ouro da casa, onde a equipe “briga para ter um custo baixo”. Como não é possível controlar o preço de venda, ditado pelo mercado, o lucro precisa ser garantido no corte rigoroso dos custos internos.
“Temos que buscar ser mais eficientes”, reforça Kakau, lembrando que “com esses preços depreciados o produtor toma prejuízo grande”. Por isso, ele insiste que “é preciso buscar eficiência para reduzir custo e aumentar a produtividade”.
O gargalo humano e o privilégio da sucessão
Apesar de toda a modernização, o setor esbarra em um problema estrutural que a tecnologia ainda não resolveu. Ao ser questionado sobre a maior dor do dia a dia, a resposta é imediata: “A dor não é só minha, é do produtor, da logística, de todo o setor”, afirma.
Ele detalha que essa carência afeta toda a cadeia, da produção à distribuição, pois “o problema chama-se mão de obra” e o mercado está “muito carente disso”.
No entanto, dentro de sua própria estrutura, a realidade é mais otimista graças à família. Kakau conta que tem três filhos e um deles decidiu permanecer no mercado para dar sequência na batata. “Vejo várias situações em que as pessoas não conseguem dar sequência, e eu tenho quem vai continuar”, celebra.
Diante das dificuldades que os colegas enfrentam para encontrar sucessores, ele encara a situação em sua empresa “quase como um privilégio”.
O papel educativo da ABBIN
Olhando para o futuro, Márcio Kakau acredita que a missão do setor deve transcender o comércio e focar na educação do consumidor. A meta é mudar a percepção pública: “Precisamos mostrar ao consumidor que ele está comendo saúde, que ele está se alimentando para levar saúde para si mesmo”, defende.
Ele vê na Associação Brasileira de Batata In Natura (ABBIN) a entidade capaz de liderar essa mudança. O grande mérito do trabalho da associação, segundo Kakau, deve ser justamente “desmistificar um monte de coisa que tem na batata” para valorizar o produto na mesa dos brasileiros.
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