Associação Brasileira de Batata In Natura

Marcelo Muller: Da Ceasa ao topo da gestão na LB Alimentos

Foto de Marcelo Muller.

O mercado de hortifrutigranjeiros é um ambiente de contrastes: ao mesmo tempo que exige o vigor físico do trabalho braçal, demanda a precisão estratégica de uma mesa de operações financeiras. Poucas figuras no Rio Grande do Sul personificam essa transição com tanta clareza quanto Marcelo Muller.

Sócio-diretor da LB Alimentos, Muller não é apenas um gestor de números; ele é um sobrevivente e um entusiasta do setor. Em uma conversa reveladora, ele detalhou sua trajetória, os desafios impostos por crises climáticas e a filosofia que transformou uma pequena operação em uma potência logística.

O começo: O valor do trabalho no pavilhão

A história de Marcelo Muller com a batata começou oficialmente em 1º de março de 1995. Naquela época, ele era um jovem estudante técnico que buscava uma forma de sustento. O destino o levou à Ceasa, onde começou como carregador na LB Alimentos.

“O que eu ganhava em uma semana na Ceasa era o que o meu estágio pagava no mês inteiro”, relembra Marcelo. Essa diferença financeira foi o primeiro combustível, mas foi o dinamismo do pavilhão que o cativou.

Muller passou por todos os setores da empresa. Ele conheceu o estoque, aprendeu as nuances da logística e mergulhou no setor financeiro. No entanto, sua trajetória quase foi interrompida por um evento violento: um assalto sofrido enquanto cuidava do caixa da empresa.

O trauma quase o fez desistir do mercado, mas os sócios da LB Alimentos enxergaram nele um talento nato para a negociação. O convite para migrar para a área comercial foi o ponto de virada que mudou o curso de sua vida profissional.

A transformação comercial e a expansão da LB Alimentos

Ao assumir o setor comercial, Marcelo Muller encontrou sua verdadeira vocação. O contato direto com produtores e clientes permitiu que ele entendesse a engrenagem do mercado de uma forma que poucos gestores conseguem.

“Ali eu me encontrei. Comecei a vender, virei gerente comercial e, mais tarde, fui convidado para ser sócio da empresa”, conta. Sob sua liderança e de seus sócios, a LB Alimentos saltou de um quadro de 10 colaboradores para 160 funcionários.

A empresa não se limitou apenas à batata, que segue como o carro-chefe. Muller ajudou a consolidar um mix que hoje inclui cebola, alho, moranga cabotiá, batata-doce e melancia. A estratégia era clara: ser a solução completa para o cliente.

Inovação tecnológica como diferencial

Um dos marcos da gestão de Marcelo Muller foi a quebra de paradigmas tecnológicos em um setor muitas vezes visto como conservador. Ele buscou referências em mercados maiores, como São Paulo, para modernizar a operação gaúcha.

A LB Alimentos foi pioneira na informatização de notas fiscais ainda nos anos 90. Mais tarde, há cerca de 15 anos, implementou o uso de tablets e aplicativos de vendas em tempo real, algo que na época gerava estranhamento nos concorrentes.

“O pessoal nos olhava como se fôssemos ETs”, brinca Marcelo. Para ele, a tecnologia nunca foi um luxo, mas uma necessidade para garantir a agilidade na informação e a eficiência logística que o produto perecível exige.

O teste definitivo: A resiliência frente às enchentes

Nenhum planejamento poderia prever a magnitude das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Para Marcelo Muller, esse foi o momento de colocar a prova não apenas a estrutura da empresa, mas seus valores humanos.

Cerca de 80% dos colaboradores da matriz perderam suas casas e bens. A frota de caminhões também sofreu danos severos. Diante do caos, a liderança de Muller foi pragmática e empática.

“Foi o momento mais difícil que já vivemos. Tínhamos funcionários que demoravam quatro horas para chegar ao trabalho por causa dos bloqueios, mas eles vinham”, relata. A empresa montou uma operação de guerra com geradores e internet via satélite para garantir o abastecimento de alimentos no estado.

Surpreendentemente, o mês da crise resultou em um dos melhores desempenhos de venda da história da LB. Muller explica que o foco não foi o lucro pelo lucro: “O dinheiro que entrou serviu para ajudar cada um daqueles funcionários a reconstruir suas vidas”.

Parceria acima do lucro imediato

A visão de mercado de Marcelo Muller é pautada na ética e na fidelidade. Ele critica o que chama de “aventureiros” — aqueles que entram no mercado apenas quando o preço da batata está alto, prejudicando a estabilidade da cadeia.

Para Muller, o segredo da longevidade é a parceria com o produtor. Ele defende que o atacadista deve honrar seus fornecedores mesmo quando o mercado está saturado e os preços estão baixos.

“Eu prefiro manter meus parceiros de 20, 30 anos, mesmo que o preço de fora esteja um pouco mais barato”, afirma. Essa rede de confiança garante que, nos momentos de escassez, a LB Alimentos nunca deixe seus clientes desabastecidos.

O legado para o setor da batata

Ao olhar para o futuro, Marcelo Muller vê um mercado cada vez mais profissionalizado. Ele acredita que a especialização é o caminho: o produtor focado na terra e o distribuidor focado na entrega e na qualidade final.

A trajetória de Muller, iniciada no carregamento de sacos de batata e culminando na gestão de uma das maiores distribuidoras do sul do país, é um exemplo de que o agronegócio é feito de tecnologia, mas, principalmente, de pessoas.

Para a ABBIN, a história de Marcelo Muller é um testemunho da força do setor. Sua paixão pela Ceasa e sua capacidade de se reinventar em meio às crises servem de inspiração para todos os elos da cadeia produtiva da batata no Brasil.

Marcelo Muller em A Voz do Batateiro

Todo o conteúdo apresentado neste artigo é apenas uma parte da riqueza de detalhes compartilhada por Marcelo Muller em sua participação no programa “A Voz do Batateiro”, produzido pela ABBIN

Quer ver ou ouvir a entrevista de Marcelo Muller na íntegra? Clique nos botões abaixo e não perca a oportunidade de aprender com quem é referência no setor.

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