O cenário internacional do agronegócio iniciou 2026 sob intensa pressão. Em janeiro, as ruas de Bruxelas, na Bélgica, foram palco de cenas dramáticas quando produtores despejaram toneladas de batatas em frente ao Parlamento Europeu. O movimento, que ficou conhecido como “Batataço”, é um protesto direto contra o avanço do Acordo UE-Mercosul, um tratado de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Contudo, além da mensagem política, os manifestantes agora enfrentam consequências legais e financeiras impostas pela prefeitura local. Mas por que este acordo gera tanta discórdia e o que ele realmente significa para o produtor?
O que está em jogo com o Acordo UE-Mercosul?
Este tratado, negociado há mais de duas décadas, visa eliminar tarifas de importação para uma vasta gama de produtos, facilitando a troca de mercadorias, serviços e tecnologia entre os dois blocos. Juntos, eles somam quase 800 milhões de consumidores e representam uma parcela significativa do PIB mundial.
Por que os agricultores europeus estão protestando?
A resistência é liderada principalmente por produtores da França e da Bélgica. Eles alegam que o acordo cria uma “concorrência desleal”, pois os produtores do Mercosul teriam custos de produção mais baixos e não estariam sujeitos às mesmas normas ambientais rigorosas do “Green Deal” (Pacto Ecológico Europeu).
O uso da batata no protesto é simbólico: a Bélgica é um dos maiores exportadores mundiais de batatas industrializadas, e os produtores locais temem que a abertura de mercado facilite a entrada de amidos e produtos processados da América do Sul.
A “Fatura” do Protesto: Prefeitura de Bruxelas cobra a conta
Embora o protesto tenha ganhado visibilidade global, a prefeitura de Bruxelas não tolerou os danos ao patrimônio. As autoridades locais emitiram uma cobrança direta aos sindicatos organizadores para cobrir os custos extraordinários de limpeza urbana e reparo do asfalto, danificado por fogueiras de pneus. Além disso, investigações foram abertas por infrações ambientais devido ao descarte irregular de toneladas de alimentos em via pública.
O Impacto para o Setor da Batata no Brasil
Para os produtores brasileiros, o Acordo UE-Mercosul apresenta um cenário estratégico:
- Acesso a Tecnologia: A redução de impostos deve baratear a importação de máquinas agrícolas e tecnologias de agricultura de precisão produzidas na Europa, aumentando a competitividade do campo brasileiro.
- Exigências de Sustentabilidade: O acordo traz as chamadas “Cláusulas Espelho”. Isso significa que, para exportar para o bloco europeu, o produto brasileiro deverá seguir padrões de rastreabilidade e sustentabilidade equivalentes aos praticados lá.
- Proteção de Mercado: O tratado prevê “salvaguardas bilaterais”, permitindo que um dos lados aumente temporariamente as tarifas se houver um surto de importações que ameace desestabilizar o mercado interno.
O Caminho para a Ratificação
A assinatura oficial ocorreu em janeiro de 2026, mas o Acordo UE-Mercosul ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais. A previsão é que as primeiras reduções tarifárias comecem no segundo semestre de 2026.
Para a ABBIN e seus associados, o momento é de preparação. O acesso a um mercado de alto poder aquisitivo como o europeu é uma oportunidade de ouro, mas exige um compromisso inegociável com a sustentabilidade e a rastreabilidade da produção.








