Associação Brasileira de Batata In Natura

“A batata no Brasil é feita de idas e vindas”: Marcos Boschini analisa as lições que moldaram o mercado

Foto de Marcos Boschini, grande representante da Batata no Brasil

O mercado da batata no Brasil não é um território para amadores ou aventureiros. Essa máxima ganha uma dimensão profunda quando analisamos a trajetória de Marcos Boschini, fundador da ADF e atual presidente do Conselho da ABBIN.

Com uma carreira que atravessa mais de três décadas, Boschini testemunhou o setor transitar de uma atividade baseada na intuição para uma das cadeias agroindustriais mais complexas do país. Para ele, a essência do fortalecimento da bataticultura hoje reside justamente nas crises passadas.

As dificuldades históricas funcionaram como uma escola rigorosa de gestão, técnica e paciência. “O que a gente pode dizer é o seguinte: a batata ela sempre foi feita de idas e vindas, de sucessos e insucessos”, resume o produtor. Cada ciclo de baixa não foi apenas um obstáculo, mas um evento que moldou o caráter e a estrutura do mercado atual. A resiliência que vemos hoje nas gôndolas e nos campos é fruto de aprendizados dolorosos, mas necessários.

O batismo de fogo: a geada de 1994 e a capitalização estratégica

A história da moderna batata no Brasil tem um marco decisivo no ano de 1994. Naquele período, a oferta nacional era muito concentrada e o setor operava com tecnologias ainda incipientes.

Tudo mudou quando uma geada devastadora atingiu o centro-sul. O impacto na oferta foi tão severo que os preços atingiram patamares que Boschini define como “estratosféricos” para a realidade da época: “Para você ter uma ideia, naquela época um saco de batata custava em torno de $70 (dólares) na lavoura. Isso em setembro de 1994… Eu creio que nessa época ainda o real era mais valorizado que o dólar”, recorda o empresário.

Para aqueles que possuíam lavouras em regiões não afetadas, como o entorno do Distrito Federal e Goiás, esse momento foi um divisor de águas. “Eu posso dizer que foi esse ano que nos colocou no mercado”, explica Boschini.

A colheita de uma boa safra em meio à escassez permitiu que sua empresa fizesse capital. A partir dali, a ADF consolidou sua posição não apenas como distribuidora, mas também como produtora de batata. Mais do que o lucro imediato, esse fôlego financeiro permitiu que o setor começasse a investir em tecnologia e infraestrutura de ponta. Foi o início de uma era de mecanização e modernização dos sistemas de irrigação que elevaria o patamar da produção nacional.

A sobrevivência nas Crises de 2017 e 2018: a dura lição da Gestão de Caixa

Se os anos 90 foram marcados pela formação e capitalização, as crises de 2017 e 2018 representaram o teste mais severo de sobrevivência. Foi um período que levou aos primeiros casos reais de recuperação judicial no setor da batata no Brasil.

Boschini descreve esse biênio como “terrível”. A dependência excessiva do sistema financeiro tornou-se um risco existencial para muitos produtores tradicionais. “Reconheço que até a alma da gente foi ao sistema financeiro”, confessa. A crise forçou uma reflexão profunda sobre a sustentabilidade do negócio. “Nós ficamos totalmente dependentes do sistema financeiro para poder plantar a próxima safra, que senão não tinha a menor condição”, afirma.

Essa experiência traumática consolidou a importância da gestão de caixa como a prioridade absoluta. Para Boschini, o maior desafio do produtor hoje não está apenas dentro da porteira, mas no equilíbrio financeiro rigoroso: “Eu acho que o grande problema da gente é o caixa… Nós vivemos num país onde se muda muito, o crédito muda, os juros mudam e os preços mudam. Você tem que ser, como dizem, ninja na atividade”, reforça.

Ele alerta que trabalhar sem capital próprio é inviável no cenário brasileiro atual. A rentabilidade da cultura da batata muitas vezes não suporta as taxas de juros bancários. Ter liquidez tornou-se a maior vantagem competitiva que um produtor pode ter.

Evolução técnica e o salto de produtividade: da Achat à Orchestra

O fortalecimento da batata no Brasil também é fruto de uma evolução genética e técnica sem precedentes. Nos anos 90, as variedades predominantes, como Achat e Bintje, tinham rendimentos modestos. Naquela época, uma produtividade de 30 toneladas por hectare era considerada o padrão. Hoje, esse cenário foi completamente transformado pela introdução de novos materiais genéticos e manejos de precisão.

Atualmente, variedades como a Orchestra estão redefinindo os limites do campo. “Agora veio a Orchestra que já se apresenta como uma alternativa melhor para algumas regiões do Brasil, com uma produtividade aí chegando a 60 toneladas por hectare”, destaca Boschini.

Esse salto representa o dobro do que se produzia há duas décadas. No entanto, o aumento da produtividade veio acompanhado de um aumento brutal nos custos de produção, o que exige um profissionalismo cirúrgico.

Boschini é enfático ao dizer que o “básico” já não garante mais o lucro. Antigamente, dizia-se que bastava ter qualidade e produtividade para ganhar dinheiro com batata. Hoje, a realidade é outra: “Hoje isso já não é mais uma verdade, porque os custos subiram tanto que às vezes mesmo você com qualidade e produtividade… você não consegue ser rentável”, alerta. Isso exige que o produtor diversifique suas atividades, plantando também grãos para diluir o risco.

O fator humano e o “Sangue de Barata” para o futuro

Por fim, Boschini aponta que o maior aprendizado de quem sobrevive à bataticultura é o desenvolvimento de uma resiliência emocional única. Ele utiliza o termo “sangue de barata” para descrever essa característica essencial. Trata-se da capacidade de manter a calma diante da volatilidade extrema do mercado. “Você tem que ter calma, não pode se apavorar, porque o ruim não vai permanecer para sempre ruim. E o que é muito bom não pode se tornar uma euforia”, ensina.

Sobre o futuro da batata no Brasil, ele acredita que o setor continuará se concentrando em mãos mais profissionais e tecnificadas. O desafio da sucessão familiar, no entanto, é o que definirá quem permanecerá no jogo. Boschini diferencia claramente herdeiros de sucessores. Para ele, apenas quem tem prazer real na atividade conseguirá perpetuá-la. “A pessoa tem que ter o prazer em desenvolver aquela atividade. Só isso vai fazer com que a atividade perpetue”, afirma.

Sua mensagem final para o mercado é um apelo à prudência. O futuro do setor depende de equilíbrio e colaboração. “Nosso futuro é um futuro de ter juízo… adequar seus custos, não arriscar muito… e seguir em frente com a cabeça no lugar”, conclui.

Conheça mais sobre a ABBIN e Marcos Boschini

A trajetória de Marcos Boschini é um reflexo do compromisso da ABBIN em fortalecer a cadeia da batata in natura no Brasil, promovendo a união entre produtores e distribuidores. Para continuar acompanhando análises exclusivas e as principais notícias do setor, convidamos você a visitar o nosso site oficial e a seguir a ABBIN em nossas redes sociais.

Não deixe de conferir a entrevista completa de Marcos Boschini no canal da ABBIN no YouTube. No vídeo, o empresário aprofunda temas fundamentais para o sucesso no agronegócio, como os detalhes sobre a transição da Cooperativa Agrícola de Cotia para a fundação da ADF, o papel vital da diversificação de culturas e sua visão sobre como novos materiais genéticos podem revolucionar o consumo de batata no país.

Assista ou ouça a entrevista de Marcos Boschini na íntegra clicando em um dos links a seguir:

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