A trajetória de Rodrigo Ribeiro na bataticultura não começou por um plano de vida, mas por uma necessidade prática. Há cerca de 16 anos, ele ingressou no setor de hortaliças como estagiário na Universidade Federal de Uberlândia. O objetivo era simples: conseguir uma bolsa de estudos.
A oportunidade o levou à Agrícola Wehrmann, onde entrou como estagiário e, após assumir diversas posições, chegou à liderança da empresa sediada em Cristalina, Goiás.
Hoje, a Wehrmann é uma potência que cultiva cerca de 2.500 hectares de batata anualmente, divididos entre a indústria e a mesa. E a visão de Rodrigo sobre o setor revela os bastidores de um mercado que não perdoa a falta de planejamento.
O mercado concentrado e a informalidade
Ao olhar para a evolução do setor, Rodrigo Ribeiro destaca a profissionalização que ocorreu nas últimas décadas, marcada por uma redução drástica no número de agricultores.
“Hoje eu não sei se esse número chega a 2.000 produtores, menos de 10% do que tinha naquela época. E a área, eu creio que ela está concentrada na mão de maiores produtores, de maiores players”, observa Rodrigo.
Apesar de a produção ter se concentrado, a comercialização da batata de mesa ainda esbarra na informalidade. Essa realidade, segundo ele, traz incertezas constantes ao longo das safras.
“Não existe uma regulação e a informação que a gente tem é muito pouca”, alerta o diretor. Essa falta de dados concretos faz com que muitos ainda se aventurem na cultura, o que gera oscilações bruscas de oferta e preço no mercado.
Custos nas alturas: a conta que não fecha
O maior desafio para quem planta hortaliças no Brasil hoje é a equação econômica, severamente afetada por eventos globais e oscilações cambiais. “A gente planta em dólar e colhe em real”, resume Rodrigo de forma direta.
A escalada de preços dos insumos desde a pandemia mudou completamente o patamar de investimentos necessários para manter a produção de pé. “Hoje o hectare de batata chega a estar mais de R$ 70.000. Quando eu comecei, a gente plantava batata em torno de R$ 14.000 o hectare”, compara o produtor.
Para piorar a situação de rentabilidade, ele lembra que o valor de venda do produto não acompanhou essa mesma inflação. “Ainda a gente vende batata a R$ 20 o saco, assim como a gente vendia lá há 15 anos”, lamenta.
Diversificação e o aprendizado da eficiência
Diante de um mercado tão volátil e com custos tão elevados, a sobrevivência exige estratégia. Na Agrícola Wehrmann, a resposta encontrada foi não colocar todos os ovos na mesma cesta.
“O que a gente tem tentado fazer ao longo dos últimos anos é ponderar os nossos riscos”, explica Rodrigo, detalhando o plantio de culturas como soja, milho, cenoura, cebola, alho, beterraba e a própria batata.
O raciocínio por trás da diversificação é simples e tem se mostrado eficaz para a empresa. “Quando se tem uma diversificação, o que a gente percebe é que nunca vai tudo muito ruim, nunca vai tudo muito bem. Você sempre tem alguma coisa que está segurando a outra”, garante.
Mas o grande salto do negócio não veio apenas da variedade de culturas, mas de uma lição valiosa sobre tamanho e produtividade. Ele relembra que, em 2011, plantaram 2.000 hectares e não tiveram lucro. Já em 2016, com apenas 1.000 hectares, colheram o mesmo volume e ganharam dinheiro.
A conclusão tornou-se um mantra para a equipe. “Você não precisa ser o maior do mundo, você precisa ter qualidade e ser eficiente”, afirma.
Ele exemplifica a regra da eficiência que guia suas operações. “Quando a batata estiver a R$ 100 o saco, você ganha dinheiro. Quando ela estiver a 50, você ainda ganha dinheiro. Agora, se ela estiver a 30, você perde menos”, detalha.
E ainda adverte sobre a necessidade de respeito à cultura agrícola. “Tem que ter medo, ter juízo e planejar, arriscar o menos possível”, pontua o diretor.
Consumo consciente e o papel da ABBIN
Olhando para o comportamento do consumidor, Rodrigo enxerga uma oportunidade de amadurecimento no Brasil, semelhante ao que ocorre na Europa, onde as batatas são vendidas de acordo com sua aptidão culinária.
Para ele, a informação gera o consumo correto e expande as possibilidades do setor. “A medida que as pessoas vão tendo conhecimento a respeito do que de fato elas estão consumindo, isso vai despertando o interesse em comprar um determinado produto para fazer um determinado prato”, analisa.
Para não deixar dúvidas sobre a importância dessa especialização, ele utiliza uma analogia clara e incontestável para ilustrar a situação. “Você não vai comprar picanha para fazer carne de panela”, conclui.
Ouça a entrevista completa com Rodrigo Ribeiro
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